Riscos

Tags

Olá meu menino,

Estou escrevendo-te de novo, não para perturbar o novo mundo que você construiu longe de mim. Eu sei que você já tem novos planos, olha outros horizontes, talvez não ouça mais a nossa música e talvez até não solte um sorriso, mesmo que fraco, ao pensar no quanto eu te amei, no quanto eu ainda te amo. Estou escrevendo para lhe contar que o destino resolveu pregar-me uma peça, maior do que ele pregou quando te levou dos meus braços… Resolveu me presentear com todos os sonhos que eu pedi enquanto estava do seu lado, mas só agora. Antes, ter a lembrança desses sonhos seria apenas a continuação do dia bonito que era, sempre era, quando estávamos juntos. Agora, parece uma tortura, parece que alguém quer me lembrar de tudo que nós vivemos. E é tão bom enquanto eu durmo… mas machuca mais que qualquer coisa quando eu acordo.De novo, você está respirando bem perto, e eu posso consolar você, posso te alcançar. De novo, não parece que você é um menino frio que esqueceu tudo que nós tivemos juntos. É apenas o garotinho que queria conhecer o mundo comigo. E eu sou a inocente que ainda não teve de perder quem ela achou que teria para sempre. Tenho medo de o meu sorriso nunca mais ser o mesmo. Eu não tinha percebido o quanto era fácil ser forte quando sabia que você iria me apoiar. Agora, quando preciso da força que achava que tinha, sinto-me sem escudo, sem parâmetro, sem chão. Eu não tinha percebido, mas eu decorei o seu cheiro, decorei seus gostos, seu jeito de andar. Eu aprendi tudo que te fazia sorrir. Por exemplo: eu sei como você gosta de dias chuvosos, e eu, que sempre amei sentar em frente à janela para admirar as gotas caindo pra pensar em você , agora não consigo fazer isso sem chorar. Não aguento mais… Sentir o teu perfume sempre que acho que te vi na rua. Mas eu não vou mais te ver na rua. Você fugiu de mim. E mesmo assim… eu não consigo fugir de você. Por quê? Por quê? Por quê? Por quê??? Não, eu não quero explicações. Queria que parasse de doer. Eu quero que você saiba… que foi inesquecível na vida de alguém. Mesmo que eu não seja nada mais do que uma memória apagada na sua vida.

De uma quase desconhecida que te carrega aonde quer que ela vá,

Marília.

Anúncios

Imagem

O Exército do Sistema

O Exército do Sistema

Posso estar feliz e sorrindo, mas sempre sinto que falta algo e não sei o que é. Essa “coisa” que não existe mais aqui em mim parece palpitar, mesmo inerte, dentro de meu ser, ela é saudosa do passado, tanto o próximo como o além das fronteiras desta vida, ela quer ressuscitar. Não importa o que eu faça, nunca mais serei a mesma, até porque o mundo já não é mais o mesmo desde então. Eu mudei definitivamente, não sei se para melhor ou pior, mas mudei e, no entanto, tenho vontade de ter continuado a mesma, com os mesmos sonhos, as mesmas fantasias, a mesma esperança.

Talvez isso tenha sido fruto do amadurecimento, da percepção de que a vida é bem mais real do que o que se passa na minha mente. Aqui nesse mundo as coisas são mais difíceis, o bonzinho nem sempre volta para casa no final e ninguém vai te eleger a “rainha do Reino” só por ser pura e ter cara de anjo. Aqui as pessoas não têm piedade de ninguém, elas te deixam chorar sozinha e não vão ser caridosas com você só porque seus sonhos são grandes. Elas não vão te ajudar a realizá-los porque não há lugar para vários, só há para um e que vença o melhor, aliás, que vença o mais forte.

É, essa era moderna parece ter sugado toda a essência do ser humano e só deixou nele medo e escuridão; é medo de não ser aceito, medo de perder, de alguém passar na sua frente. Todos numa compulsão por ser o melhor, por ser perfeito, por ser o eleito. As pessoas não se olham nos olhos, têm medo de descobrir que são mais semelhantes do que aparentam, que são mais frágeis do que não se permitem ser. Têm medo de sentir, de expressar o que são de verdade, de fazerem papel de bobas; as pessoas têm medo da desaprovação alheia.

Agora sou produto do meio, pertenço ao exército do sistema e não há como fugir disso, nem percebi quando caí na armadilha, achei que estava tomando o rumo certo. Agora sou máquina de destruição da concorrência, corredora da maratona de desesperos pela ascensão, pelo status e pelo dinheiro. Não sou mais a idealizadora de um futuro revolucionário que preze a igualdade e a bondade entre todos, sou uma competidora, tudo o que me move agora é a necessidade de estar nessa rede integrada e mascarada, nesse demolidor de humanidade.

E sabe o que me dizem nesse momento? – “Bem vinda à tropa. À luta, soldada!” – E eu respondo em continência.

Licença Creative Commons
O Exército do Sistema de Agatha Fawkes é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Baseado no trabalho em paginasdobradas.wordpress.com.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em https://paginasdobradas.wordpress.com/.

Imagem

Encontro Com O Passado

Ireland

Eu sinto falta desse lugar que eu não sei onde é, eu sinto falta dessa vida que lá parecia pulsar. Eu sinto falta daquele mar gelado, daqueles bosques, daquelas paredes de pedra. Eu sinto tanta falta desse lugar em que nunca estive, pelo menos não nesta vida. Eu sinto falta das paisagens que sempre vêm em meus sonhos, as mesmas, todas as vezes. Eu sinto falta do ar salobro, daquele cheiro de terra molhada, eu sinto falta daquele céu nublado e mesmo assim tão lindo.

Que nome terá esse lugar? Onde fica? É desse mundo? Eu não sei, mas daria qualquer coisa para saber onde o meu passado se enterrou, passado que desconheço, do qual só vejo relances quando fecho os olhos. Eu daria tudo para ouvir o canto dos pássaros daquela terra, para me deitar naquela grama úmida de orvalho e contar as estrelas e brincar com as flores pequeninas, eu daria tudo para estar em casa. Sim, lá é o meu lugar e não aqui, pela primeira vez percebo que não pertenço a essa cidade movimentada, barulhenta e suja, percebo que a escravidão do sistema não é para mim. Eu queria ter tempo para mergulhar naquela água tão pura e observar o movimento das nuvens e ver como as plantas cresciam verdes e brilhantes, eu queria caminhar pelas trilhas, eu queria poder sentir a chuva lavando minha alma.

Foto nenhuma se compara, palavras não são suficientes para descrever a beleza dessa terra, desse mundo que era meu, mas que se esconde do meu alcance, que só me vem nos sonhos, lamento nenhum expressa a minha saudade de lá, nem a minha dor por não estar rodeada por aqueles encantos. Eu só queria poder saber o seu nome…

Licença Creative Commons
Encontro Com O Passado de Agatha Fawkes é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Baseado no trabalho em paginasdobradas.wordpress.com.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em https://paginasdobradas.wordpress.com/.

O recomeço – Ele

Tags

, ,

ANTES DE LER ESTE TEXTO, LEIA: https://paginasdobradas.wordpress.com/2012/04/04/o-recomeco-ela/

Acordei bem cedo naquele dia, Sophie ainda dormia tranquilamente ao meu lado, ela ficava tão fofa assim. Fiquei admirando a minha Sophie por alguns segundos e fui preparar o café da manhã, enquanto estava na cozinha escutei-a acordando, coloquei os pratos na mesa e voltei ao quarto.

Chamei-a para o café como faço normalmente, mas dessa vez não fui recepcionado com um beijo de bom dia, e sim com gritos e chutes. Pensei que ela estava tendo um pesadelo e tentei acalmá-la. Ela dizia que não estava lembrando-se de nada, nem mesmo o seu próprio nome! No começo achei que era brincadeira, mas o seu olhar assustado mostrava que eu estava enganado. Acalmei-a e comecei a falar:

-Bem, Sophie, tente tomar seu café, vamos ao médico depois daqui.

-Tudo bem…

– Por enquanto vamos ver se lembra de algo, hum… Eu sou Fernando, nós somos namorados e moramos juntos faz um ano e… Somos advogados… Consegue se lembrar de algo?

– Me desculpe, não.

Depois que terminamos de tomar o café da manha fomos ao médico. Eu ainda tinha algumas esperanças sobre o retorno da memória dela. Durante a visita essas esperanças foram quase todas destruídas, comecei a imaginar se ela não poderia estar inventando tudo isso.

Durante o retorno para o apartamento, não consegui me aguentar, bombardeei ela com perguntas.

-Mas, você tem certeza de que não se lembra de nada?

-Eu realmente não lembro.

-E sobre os nossos quatro anos de namoro?

-Sinceramente, não me lembro de nada.

Eu precisava que ela se lembrasse, então continuei a perguntar até que ela não aguentou mais e gritou muito comigo. Naquele momento, as esperanças que restaram tiveram o seu fim.

Voltamos ao apartamento, porém eu não aguentava ficar lá, minha cabeça estava muito pesada, eu precisava sair um pouco. Disse a ela que se precisasse dormir ficasse a vontade que eu poderia dormir no sofá, peguei as chaves do carro e saí.

Enquanto corria por uma rodovia vizinha a cidade, vários pensamentos passavam pela minha cabeça.

Aquilo não podia ser verdade, eu estava tendo um pesadelo, o que iria ser de nós? Ela com certeza iria querer ir embora, e eu ainda fiz as coisas piorarem, como o idiota que eu sou, como isso pode acontecer com a gente?

Depois de 20min correndo na estrada, parei o carro num acostamento, ao lado da placa “km 40”. Abri o porta-luvas, havia apenas uma caixinha lá dentro.

Abri a caixinha, ao olhar seu conteúdo não consegui mais segurar as lagrimas. Fechei-a e atirei-a pela janela do carro e caiu ao lado da estrada, onde ninguém pudesse ver.

E o dia em que eu iria pedir minha Sophie em casamento terminou comigo jogando as alianças fora.

CONTINUA

Detalhes

Você já viu um besourinho de perto? Uma borboleta voando, uma formiga carregando uma folha? É assim, bem de pertinho, que sinto a perfeição da natureza. A perfeição dos detalhes. O equilíbrio. É lindo, é mágico.

Temos mania de grandeza. Mas sabe, às vezes acho que a verdadeira beleza está na pequenez. Está nos detalhes. É lindo perceber que, quando apaixonados são os detalhes que nos enchem a cabeça. É lindo perceber a imensidão contida num pequeno gesto, num singelo sorriso, numa simples palavra.

Às vezes nem notamos o quão lindo o mundo é. O quão fascinante é ver uma gota de orvalho cair numa folha. Ver um floquinho de neve tocar o nariz de uma garotinha. Ver uma lágrima se formar, molhando uma face antes estática, vazia. Uma lágrima de tristeza varrer com ela a alegria. Uma lágrima de felicidade iluminar um rosto melancólico. Mas, sobretudo uma lágrima de amor criar uma confusão sem nome, um sentimento indescritível, que vaga entre a tristeza e a alegria. Ver uma lágrima de amor deixar transparecer o amor. Detalhes. Mas agora me diga: não é lindo?

O recomeço – Ela

Tags

, ,

E naquele dia, acordei como se tivesse acordado pela primeira vez da minha vida. Abri os olhos, olhei para os lados, onde eu estava? Então veio uma dúvida ainda maior na minha cabeça, quem eu era? Não consegui lembrar.

De repente, um homem aparece na porta do quarto, e fala:

-Bom dia amor, já fiz o nosso café – e enquanto fala, seguia para me beijar.

Ele só podia ser algum tipo de pervertido. Não consegui fazer outra coisa além de gritar e dar um chute nele:

-QUEM É VOCÊ? SAIA DE PERTO!

– Sophie, deve ter sido um pesadelo, calma, sou eu, Fernando.

– E quem sou eu?

– Isso é algum tipo de brincadeira?

-Não! Eu não lembro de nada.

Esse homem me olhou com um olhar preocupado e disse que ia me levar ao médico. Enquanto tomávamos café, me contou algumas coisas para tentar me ajudar a lembrar. Meu nome era Sophie, era namorada dele, morávamos juntos e ambos éramos advogados. Não consegui me lembrar de nada, mas pelo menos vi que ele não era um pervertido.

Fomos ao médico, ele disse que nunca tinha visto alguém perder as memórias sem motivo algum e disse que infelizmente não sabia se elas voltariam. Desconfiado, perguntou se eu estava falando a verdade. Respondi que sim e entrei em pânico, mas por alguma razão, Fernando parecia mais abalado do que eu.

– Vamos para casa, ainda bem que estamos de férias – ele disse.

No caminho, esse tal de Fernando não parava de perguntar se eu lembrava algo sobre o nosso relacionamento. De acordo com ele iriamos fazer quatro anos de namoro no mês seguinte. Porém, eu não sentia nada por esse homem, e pelas expressões do médico, minha memória não irá voltar.

De volta ao apartamento, não aguentei mais aquele questionário e explodi com aquele homem:

-Me deixe em paz! Já cansei das suas perguntas repetitivas! Eu não me lembro de nada!

-Mas meu amor…

-Nada de ”meu amor”, eu não sou sua! Sinto muito, mas você é um estranho para mim.

Ele se calou, falou que ia dar uma volta e disse que eu poderia dormir na cama, ele não tinha problemas com o sofá. Minha cabeça estava agitada, precisava caminhar um pouco.

Andei um pouco pelos arredores do condomínio, percebi alguém me observando de longe. Ele estava num restaurante, tomando uma taça de vinho sozinho, por alguma razão comecei a andar na direção dele.

Ao chegar a frente ao restaurante, acabei ficando com bastante vergonha e dei meia volta, quando me virei, escutei-o gritando o meu nome:

-Sophie! Lembra-se de mim, Henrique?

Ao escutá-lo, meu coração começou a bater mais rápido, e uma sensação estranha tomou conta de mim.

Meu coração parecia ter se lembrado de alguém.

CONTINUA

Imagem

Olhar de Louco

Olhar de Louco

… Muito tempo depois eles se encontraram. Aquele fogo que os consumiu por tanto tempo, no entanto, já havia se extinguido, suas mãos pararam de procurar um ao outro, só o que existiu desde então foi o silêncio de um quarto escuro, de um domingo sem passeio. Eles se encontraram muito tempo depois de terem se amado, de tudo aquilo ter invadido suas vidas da maneira mais indescritível possível.

Eles se olharam e reconheceram aqueles mesmos traços, aquele mesmo jeito de olhar, aquele cabelo assanhado. Tudo como sempre, mas faltava algo, faltava o sentimento que fazia todo o conjunto da imagem ser grandioso, faltava o amor que achava graça das imperfeições, faltava aquele frio na barriga, aquele brilho nos olhos.

Sim, faltava mesmo esse tal brilho. Era isso o que mais deixava tudo diferente, mesmo estando aparentemente tudo igual. Eles passaram por tanta coisa nesse tempo, não é de se admirar que a luz não estivesse tão presente nos olhos de um para outro. Eles cresceram, amadureceram, viveram, sofreram, amaram, riram e choraram. Eles nunca conseguiram se encontrar em outro alguém, mas acharam pessoas que fizeram toda a caminhada valer a pena, acharam outros brilhos em outros olhares. Brilho de louco? Talvez… Amor é um sentimento tão inconstante, tão… Maluco.

Eles pararam por segundos nesse olhar e lembraram o passado, lembraram aquelas promessas, lembraram o começo, o meio e o fim. Não, o fim não, esse nunca existiu, é uma espécie de ilusão que os homens criaram para fingir que a dor passou. Eles lembraram as sensações, mas elas não estavam mais ali naquelas mentes, naqueles corações, naqueles olhos, e sentiram saudades delas. Mas eles sabiam que aquela época já tinha passado, não era mais o dia deles, nem o ano, nem a vida.

Então se despediram. Não trocaram palavras, disseram adeus apenas com o olhar, embora não fosse o de outrora, aquele que tanto os interligava, ainda era um direcionar de vistas a um ponto fixo, era um modo de dizer que tudo aquilo existiu, era um modo tímido de dizer “eu nunca deixei de te amar”.

Licença Creative Commons
Olhar de Louco de Agatha Fawkes é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Baseado no trabalho em paginasdobradas.wordpress.com.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em https://paginasdobradas.wordpress.com/.