O Exército do Sistema

Posso estar feliz e sorrindo, mas sempre sinto que falta algo e não sei o que é. Essa “coisa” que não existe mais aqui em mim parece palpitar, mesmo inerte, dentro de meu ser, ela é saudosa do passado, tanto o próximo como o além das fronteiras desta vida, ela quer ressuscitar. Não importa o que eu faça, nunca mais serei a mesma, até porque o mundo já não é mais o mesmo desde então. Eu mudei definitivamente, não sei se para melhor ou pior, mas mudei e, no entanto, tenho vontade de ter continuado a mesma, com os mesmos sonhos, as mesmas fantasias, a mesma esperança.

Talvez isso tenha sido fruto do amadurecimento, da percepção de que a vida é bem mais real do que o que se passa na minha mente. Aqui nesse mundo as coisas são mais difíceis, o bonzinho nem sempre volta para casa no final e ninguém vai te eleger a “rainha do Reino” só por ser pura e ter cara de anjo. Aqui as pessoas não têm piedade de ninguém, elas te deixam chorar sozinha e não vão ser caridosas com você só porque seus sonhos são grandes. Elas não vão te ajudar a realizá-los porque não há lugar para vários, só há para um e que vença o melhor, aliás, que vença o mais forte.

É, essa era moderna parece ter sugado toda a essência do ser humano e só deixou nele medo e escuridão; é medo de não ser aceito, medo de perder, de alguém passar na sua frente. Todos numa compulsão por ser o melhor, por ser perfeito, por ser o eleito. As pessoas não se olham nos olhos, têm medo de descobrir que são mais semelhantes do que aparentam, que são mais frágeis do que não se permitem ser. Têm medo de sentir, de expressar o que são de verdade, de fazerem papel de bobas; as pessoas têm medo da desaprovação alheia.

Agora sou produto do meio, pertenço ao exército do sistema e não há como fugir disso, nem percebi quando caí na armadilha, achei que estava tomando o rumo certo. Agora sou máquina de destruição da concorrência, corredora da maratona de desesperos pela ascensão, pelo status e pelo dinheiro. Não sou mais a idealizadora de um futuro revolucionário que preze a igualdade e a bondade entre todos, sou uma competidora, tudo o que me move agora é a necessidade de estar nessa rede integrada e mascarada, nesse demolidor de humanidade.

E sabe o que me dizem nesse momento? – “Bem vinda à tropa. À luta, soldada!” – E eu respondo em continência.

Licença Creative Commons
O Exército do Sistema de Agatha Fawkes é licenciado sob uma Licença Creative Commons Atribuição-Uso não-comercial-Vedada a criação de obras derivadas 3.0 Unported.
Baseado no trabalho em paginasdobradas.wordpress.com.
Perssões além do escopo dessa licença podem estar disponível em https://paginasdobradas.wordpress.com/.

Anúncios