Hoje vou dar início à minha série de crônicas sobre algo que todos já viram na TV, mas acho que poucos já leram sobre. Espero que gostem.

     Estava serenando. Eram 5 horas da manhã e eu estava saindo de casa. A cidade estava deserta, à exceção de alguns ônibus com raros passageiros que começavam a circular.
Era quarta-feira de cinzas e eu sabia que havia muito trabalho a fazer. O Carnaval sempre me dava muito que fazer. Cinco dias de desastres que faziam meu serviço acumular, afinal, outros eventos dependiam da minha rapidez.
Cheguei.  O dia já havia raiado e eu era uma das primeiras a chegar. Olhei tediosamente o contador de andares enquanto esperava que parasse no sexto. Abri a porta da minha sala e me pus a examinar o que havia em cima da mesa. Vesti as luvas enquanto procurava pelo formulário.
O primeiro caso do dia já se apresentava um desafio. Na ficha pendurada no tornozelo lia-se “Desconhecida”. O formulário dizia que o corpo havia sido achado na terça-feira de manhã numa praia famosa. Os pertences encontrados com a vítima foram: uma latinha de cerveja vazia perto do corpo, um cordão com pingente de menininha, 10 reais e um anel que, segundo o policial que escreveu o relatório, estava no dedo anelar esquerdo.
Casada, com uma filha e saindo na calada da noite para aproveitar o Carnaval? Era o que parecia.
Ela não era feia. Tinha os cabelos ruivos, olhos azuis, pele branca, mas recentemente bronzeada. Não era uma beleza comum, mas certamente era o tipo de mulher que chamaria atenção. Sim, mulher. Devia ter 30 e poucos anos. Era tempo o bastante para construir uma vida, uma carreira, uma família. Qual seria seu emprego? Devia ser algo bom, o celular no bolso do short era de última geração…
Um celular! Como aquilo tinha passado pelos policiais? Chequei se estava funcionado. Estava. Desbloqueei e fui direto para a agenda, mas havia uma senha a ser colocada. Não havia jeito de acessar os contatos. Ou talvez houvesse… Decidi ligar para o delegado responsável (ou irresponsável) pelo caso. Tentei ligar. E tentei. E tentei. E tentei. Na sexta ou sétima vez ele atendeu.

– Alô?
– Com sono senhor?
– Quem está falando?
– A legista da vítima que o senhor esqueceu-se de revistar direito.
– Como?
– “Desconhecida”, encontrada na praia com um colar, uma latinha de cerveja, 10 reais, uma aliança e uma celular.
– Um celular?
– O senhor é surdo?
– Que tipo de pergunta é essa?
– O senhor é surdo.

Já estava perdendo a paciência. Que reconfortante era saber que havia tão bons profissionais cuidando dos mortos. Imagine dos vivos.

– O senhor tem que vir aqui. Há um celular. E está funcionando. Eu preciso de um perito ou de alguém que saiba mexer em celulares para acessar os contatos.
– Eu sinceramente acho que é impossível nós termos deixado uma coisa como essa passar.
– Pois espere.

Desliguei. Peguei o celular da vítima e disquei o número do meu colega delegado.

– Alô.
– Esse é o número do celular da vítima. Está gravado no seu celular. Vá à delegacia e tente descobrir quem ela é. E mande alguém para acessar a agenda. Espero resposta até às 8:30.

“Agora, ao trabalho”, pensei.

♣͌

     Já eram 8:25 e nada de perito, nada de identificação, nada de nada.
8:26. Já estava tirando as luvas para lavar as mãos.
8:27. Mensagem no celular da vítima: “você teve 20 ligações perdidas”.
E lá estava a mensagem salvadora. Alguém estava procurando por ela. Um marido, um irmão, uma mãe, um pai… E liguei. Depois de dois bips uma voz apressada atendeu:

– Alô? Bia?
– Ah, o nome dela é Bia, então…
– Quem está falando?
– É a médica leg… A médica. A senhora é parente dela?
– Sim, sou tia dela.
– Onde a senhora mora?
– Por que a senhora está perguntando isso? Aconteceu algo com a minha sobrinha?
– A senhora tem quantos anos?
– 74.
– Tem alguém aí com você? Um filho, qualquer um?
– Sim, meu filho está aqui.
– Passa pra ele.
– O quê?
– O telefone, passa o telefone pra ele.

1 minuto de silêncio. Podia sentir a preocupação por trás do telefone. Eu estava nervosa. Geralmente eu não me encarregava de dar más notícias. Deveria dizer logo ou ficar rodeando o assunto? Antes que eu pudesse pensar em algo para dizer, a voz de alguém me respondeu:

– Alô, aconteceu alguma coisa com a Bia?
– Sim, ela morreu.
– Como?
– Morreu. Havia algo na bebida dela, algo que a matou. A substância está sendo analisada, o resultado deve sair em uma semana. Ela tem família? Marido ou filhos?
– Tem sim. Ela é casada e tem uma filha de 5 anos.
– Bem, o corpo dela está aqui para ser reconhecido. Vou dar o telefone da delegacia, eles podem lhe dar mais informações.

Parecia que tinha tirado um peso enorme das costas e colocado outro maior. Em todo esse tempo só havia pensado na morte da vida. Nunca havia passado pela minha cabeça que o contrário também existia. A vida da Morte, com quem eu lidava todo dia.
E o resultado. Por mais que eu precisasse da confirmação do laboratório, tudo apontava para algo no mínimo doentio. Tentei afastar aquilo da minha cabeça. Já havia me envolvido demais, era hora de passar aquilo para a polícia. Mas será que seria tão fácil tirar aquela conjectura da minha cabeça?
“Isso não é hora de pirar, Alice” disse a mim mesma, “tem outras pessoas esperando por você”.

͌♣

     Mais tarde naquele dia vi uma senhora, um rapaz e um homem acompanhado de uma menina de olhos claros e cabelos ruivos. Ela usava um colar com pingente de bonequinha. Enquanto segurava a mão da criança, o homem balbuciava algo sobre uma briga com a esposa e tentava esconder as lágrimas.

Eu passei por eles pensando: “Que tipo de psicopata anda por aí no carnaval com cianureto no bolso?”

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O trabalho A Vida da Morte de Alice L. Neruda foi licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição – NãoComercial – SemDerivados 3.0 Não Adaptada.
Com base no trabalho disponível em paginasdobradas.wordpress.com.

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