Mas o amor ainda existe, não morreu não, mesmo depois de todo esse caos, mesmo depois de tanta coisa ter desmoronado. Tem horas que cansa tentar ser forte o tempo todo, tem horas que cansa fechar os olhos e fingir que não se vê, que não se sente. E agora ele vai embora e eu estou aqui tentando me convencer de que é  o melhor, de que vai ficar tudo bem, de que é necessário, já que nem nos falamos mais, ia ser só a ausência definitiva dele e de nossos olhares vazios que por frações de segundo, uma vez ou outra, chegam a ser a única forma de notarmos a existência um do outro. Engraçado como as coisas ficaram, aliás, engraçado não, lamentável; não consigo definir o que sinto quando o vejo, só sei que é algo triste, desprovido de esperança, de afeto, é como ver alguém embarcando num navio e sabendo que não existe passagem de volta, só ida. Então o navio levanta âncora, liga os motores e começa a marchar lentamente pelo oceano sem fim e aí a  vontade é de se jogar naquela água – que importa se é gélida ou escaldante? –  e nadar até alcançar  a bendita embarcação, braçada por braçada, o tempo que levasse. Mas a gente não se joga, a gente fica só olhando tudo aquilo afastar-se e perder-se de vista, a gente deixa as lágrimas caírem, mas não deixa o joelho dobrar, a gente se destroi e não quer que ninguém reconstrua, a gente quer só ficar ali com a nossa dor, na esperança de que ela nos mate e então não precisemos ver ou sentir mais nada. Eu não sei o que pensar, o que sentir, o que fazer, como seguir, só sei que com ele se vai um pedaço de mim que, como ele, não volta mais.

Agatha Fawkes
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